Dom Genival Saraiva
Bispo Emérito de Palmares (PE)
A condição de peregrino é uma realidade
inerente à vida do povo de Deus, como foi no passado. Se antes a
peregrinação tinha como destinação a terra prometida, hoje tem como o
horizonte a “pátria eterna”. Foram muitos os desafios experimentados
pelo povo hebreu e longo o percurso geográfico da caminhada; hoje, o
êxodo tem perfil e desafios próprios e uma abrangência maior porque o
povo, em muitas partes do mundo, conhece as vicissitudes de uma longa e
difícil travessia. Nesse sentido, a Páscoa de 2016, vivida pelos
católicos com a certeza de continuarem contando com a presença de Jesus
ressuscitado, não pode deixar de ter um olhar misericordioso sobre a
realidade do mundo, ao seu redor, porque, para bilhões de pessoas, a
expectativa da conquista e a experiência da vitória ainda estão pra
acontecer. Basta que se veja o êxodo de milhares de pessoas do Oriente
Médio, em busca de sobrevivência na Europa e em outros Continentes; isto
está dizendo à humanidade que os faraós de hoje são mais brutais do que
os do Egito. A fome, a que estão submetidas milhões de pessoas, tem uma
linguagem iníqua; sua extensão, que não tem precedentes na história,
não é consequência de intempéries, mas das gritantes desigualdades
sociais que são, facilmente, identificadas no “mapa mundi”. Eis a razão
pela qual a Páscoa deste ano, necessariamente, deve falar à razão e ao
coração de todos.
No Brasil, a graça de que necessitam os
indivíduos, as famílias e os cidadãos, nesta Pascoa de 2016, tem um quê
de particular, dado o estado de coisas que, além da crônica, está
registrado em sua mente e em seu coração. A crise política e econômica,
causada por uma corrupção calculadamente arquitetada por políticos e
empresários, vai de encontro às aspirações e aos direitos individuais e
coletivos. A esse respeito, tendo chamado a fazer a experiência da
misericórdia quem faz parte de “um grupo criminoso”, o Papa Francisco,
na Bula “Misericordiae vultus” (O Rosto da Misericórdia), faz um
convite, em vista de sua conversão, a quem promove a corrupção: “O mesmo
convite chegue também às pessoas ou cúmplices da corrupção. Esta praga
apodrecida da sociedade é um pecado grave que brada aos céus, porque
mina as próprias bases da vida pessoal e social. A corrupção impede de
olhar para o futuro com esperança, porque, com a sua prepotência e
avidez, destrói os projetos dos fracos e esmaga os mais pobres. É um mal
que se esconde nos gestos diários para se estender depois aos
escândalos públicos. A corrupção é uma contumácia no pecado, que
pretende substituir Deus com a ilusão do dinheiro como forma de poder.”
A Páscoa de 2016, celebrada com os
estímulos do Jubileu da Misericórdia, apela para a aplicação da justiça a
quem causou males de toda natureza aos seus irmãos. Essa ordem de
coisas no Brasil e no mundo está muito distante das alegrias e certezas
da Ressurreição.
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