Dom Caetano Ferrari
Diocese de Bauru
Naturalmente não existe um viver
permanentemente sob a emoção do “encantamento”. Contudo, o elemento
tempo faz parte dessa experiência, ela deve impactar a vida por um bom
tempo, então, o tempo conta muito; a duração do efeito deve-se mais pelo
teor da qualidade do impacto do que pela sua quantidade. Uma emoção
ainda que intensa, mas instantânea que logo passe e dela se esqueça,
isto é, de baixo valor, pouco ou nada marcará a vida.
O apóstolo Lucas conta no Evangelho da
Missa de hoje - Lc 19, 1-10 - o encontro entre um chefe dos cobradores
de impostos, muito rico, chamado Zaqueu, e Jesus Cristo, ocorrido num
certo dia em que Jesus tinha entrado na cidade de Jericó. A história é
muito conhecida e tem sido comentada em prosa e verso exatamente pela
exemplaridade desse encontro, como um momento de encantamento que
revolucionou a vida de Zaqueu. Resumidamente, Zaqueu é aquele homem que
ouvira falar de Jesus e desejava ver quem era Jesus, mas, sendo de
pequena estatura, não conseguia vê-lo por causa da multidão. Então, ele
seguiu à frente e subiu numa figueira sob a qual Jesus passaria. Jesus,
quando chegou à figueira, olhou para cima e disse: “Zaqueu, desce
depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa”. Mais do que esperava, Zaqueu
desceu correndo e com alegria recebeu Jesus em sua casa. Ao ver isso,
grande parte do povo murmurava escandalizada porque Jesus fora
hospedar-se na casa de um pecador. Já em casa, Zaqueu, abrindo o seu
coração, disse a Jesus: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos
pobres e, se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais”.
Respondendo, Jesus afirmou: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque
também este homem é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do homem
veio procurar e salvar o que estava perdido”.
Consideremos Zaqueu. Foi ou não foi um
encontro encantador esse que ele teve com Jesus? Ora, não é preciso
muitas explicações. Lucas foi sucinto na descrição do impacto que o
encontro com Jesus provocou em Zaqueu: Reconheceu-se pecador, prometeu
distribuir metade dos seus bens aos pobres e a devolver quatro vezes o
que roubou. Jesus, por sua vez, sacramentou o arrependimento e confissão
de Zaqueu com a graça da salvação e lhe reconheceu a dignidade de filho
de Abraão. Eis aí um encontro deslumbrante, salvador, que certamente
marcou para sempre a vida desse homem.
Como o médico está aí para curar os
doentes e não para tratar dos sadios, Jesus disse mais de uma vez que o
Filho do Homem veio para procurar e salvar os que estavam perdidos. Por
isso, Ele priorizou encontrar-se com os pecadores, comer com os
publicanos, acolher as prostitutas, ir atrás das ovelhas desgarradas,
socorrer os aflitos. Jesus admoestou as multidões a amar os inimigos,
fazer o bem aos que fazem o mal, bendizer os que amaldiçoam, orar por
aqueles que difamam (cf. Lc 6, 27-35). Disse ainda: “Sede
misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, para
não serdes julgados. Não condeneis, para não serdes condenados; perdoai,
e vos será perdoado. Dai e vos será dado. Será derramada no vosso
regaço uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante, pois com a
medida com que medirdes sereis medidos também” (Lc 6, 36-38).
O Papa Francisco vem convidando os
cristãos a renovar o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou a tomar a
decisão de se deixar encontrar por Ele. Assim se expressou na “Evangelii
Gaudium” (A Alegria do Evangelho), insistindo em dizer que a “Igreja
não cresce por proselitismo, mas por atração” (n: 14). Crescer por
atração é o mesmo que por encantamento, deslumbramento, alegria de
conhecer e amar a Jesus Cristo. Assim sendo, o Papa Francisco segue a
linha de pensamento do seu antecessor, o Papa Bento, e cita esse Papa
que disse: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma
grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá
à vida um novo horizonte e, desta forma o rumo decisivo” (Deus Caritas
est, 1). O Documento de Aparecida também afirma que o encontro pessoal
com Jesus é fundamental: “Jesus precisa ser encontrado, seguido, amado,
adorado, anunciado e comunicado” (n 14). O discípulo deve ser alguém
fascinado por Jesus. A fascinação de Zaqueu por Jesus nasceu desse seu
encontro encantador com Jesus.
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