Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)
O núcleo central é, portanto, a fé no
Deus amor. Eis o desafio: saber tratar a fé à luz da Palavra de Deus,
instância com força de correção diante das complexidades da vida
contemporânea. Desse modo, é possível tocar o núcleo existencial de cada
pessoa e, assim, promover qualificação, constituir sólido alicerce para
escolhas que garantam a fecundidade de uma cidadania civil e eclesial.
Muitas são as dificuldades enfrentadas hoje pela Igreja Católica,
desafiada a dar novas respostas. Isso não se resume simplesmente à
análise de dados estatísticos envolvendo perda de fiéis ou a verificação
de trânsito religioso. Para além de números, embora eles sejam
importantes indicadores na avaliação de processos, o desafio reside no
fortalecimento da capacidade para ajudar cada pessoa a qualificar sua
dimensão existencial.
As dinâmicas de evangelização na Igreja
estão girando entre polarizações - como as próprias do pentecostalismo e
aquelas já morridas do racionalismo. Urgente é uma “Igreja em saída”,
que eleja como meta as periferias humanas, sem desconsiderar as
periferias geográficas. Para isso, conforme sublinha o Papa Francisco,
são necessárias transformações de costumes, estilos, horários e de toda a
linguagem eclesial. A autopreservação, no dizer do Papa, ou pastoral de
conservação, desenha a enorme barreira que atrasa ou impede a esperada
resposta.
Assim, estruturas eclesiais que
condicionam o dinamismo evangelizador precisam ser renovadas para que a
Igreja possa, cada vez mais, ajudar o mundo a superar seus desafios.
Esse passo de conversão e essa resposta não são alcançados apenas pela
reafirmação conceitual das verdades intocáveis que definem a fé cristã,
sua vivência e testemunho. Almeja-se uma nova e inadiável consideração
da dimensão existencial do ser humano, para fortalecer a centralidade da
fé vivida e professada. Nesse caminho, por meio da Palavra de Deus,
será possível qualificar cada pessoa. O primeiro passo é uma
revitalização no modo de ser cristão-católico e, consequentemente,
avaliar melhor as escolhas pessoais. Não basta investir conceitualmente
em mudanças de configurações organizacionais sistêmicas no conjunto dos
funcionamentos das estruturas eclesiais. O que precisa ser priorizado é o
existencial humano, aprisionado pelo individualismo, dominado
exclusivamente por emoções e devocionismos tortos, ou presidido pela
hegemonia de uma autonomia que cega, impossibilitando o gosto
transformador e libertador de crer.
A luta que atrasa esperados avanços rumo
à meta de uma “Igreja em saída” requer urgente substituição de modelos,
mentalidades e entendimentos engessados. A prioridade é o dom do
encontro com Jesus Cristo pela escuta e vivência da Palavra de Deus.
Oportuno é lembrar o que diz o Documento de Aparecida: “Nossa maior
ameaça é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, na qual,
aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se
desgastando e degenerando em mesquinhez”. Diante dos modelos obsoletos
que presidem práticas pastorais e vivências eclesiais e da fé, vale a
advertência poética de Fernando Pessoa: “Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas, que já têm a forma de nosso corpo, e
esquecer os nossos caminhos que nos levam aos mesmos lugares”. Ora,
continua ele dizendo, “é tempo de travessia, e se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. Esse é o desafio!
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